[CRÍTICA] Cinquenta Tons Mais Escuros (2017)


The Breakdown

2.0

A continuação de Cinquenta Tons de Cinza, filme premiado no Framboesa de Ouro de 2015 como pior daquele ano,  tem sua continuação. Se eu não tivesse dormido no primeiro filme,  poderia fazer uma comparação entre os dois. Mas garanto: “Tons Mais Escuros” está cotadíssimo para pior produção de 2017 – e olha que o ano mal começou.

A começar pelo enredo (?) onde quase nada acontece. Nos primeiros cinco minutos, os protagonistas já estão juntos novamente, e não há nenhum apelo emocional ou dramatização disso. A relação dos dois, aliás, não é nada explorada. Qualquer briga que venham a ter, em dois minutos será totalmente esquecida e eles estarão transando como se nada tivesse acontecido. Isso enfraquece totalmente a narrativa, pois nada é tratado com profundidade, o que não gera nenhum tipo de tensão ou expectativa.

Na verdade, o longa não proporciona experiência alguma. Tudo vem enlatado, com ar de feito às pressas para não perder a clientela. O roteiro é composto quase que 100% por frases de efeito. A todo momento, Mr. Grey responde Anastasia com alguma frase curta posta com uma entonação que era para soar sexy, mas não funciona e acaba fazendo rir.

Há muitos furos aqui, o que demostra uma total falta de preocupação em desafiar o bom senso do espectador.  Por exemplo, quando Christian Grey sofre um grave acidente de helicóptero e no mesmo dia aparece em casa, limpinho e bem arrumado, sendo tudo resolvido num piscar de olhos (mais uma vez o problema da falta de profundidade), ou quando a ex psicopata de Christian invade a casa de Anastasia portando um revólver e a mesma simplesmente solta um “Oi, como é que vai?”. A tentativa desesperada de clímax com essa história de acidente pode ser vista até como a pior coisa do filme.

O personagem Grey, a meu ver, não desperta nenhum carisma. O cara é bonitão, mas o personagem se comporta como uma criança mimada que a todo momento quer mostrar que pode comprar o mundo – como se poder de compra fosse algo excitante ou despertasse alguma simpatia pelo personagem (?). Fora o que o papel de macho alfa bonitão-rico-garanhão-doente representa (falo disso mais abaixo).

A trama não tem um conflito central, mas é composta por vários pequenos problemas que surgem e são facilmente resolvidos (com sexo). Não é que as cenas eróticas me incomodem, entenda, mas elas precisam de uma sustentação maior. Se os personagens não provocam nenhum tipo de sentimento em mim, como espectadora, porque raios a cena de sexo entre os dois me causaria algum entusiasmo?

Objetificação da mulher

Anastasia é apresentada como uma mulher bem resolvida, que lê Jane Austen (talvez o maior nome no feminismo literário) e não desperta interessa nos bens de Grey. Mas, a todo momento, ele se esforça para impressioná-la transferindo 20 mil dólares para a sua conta bancária (que mais tarde ela doará para caridade, quão previsível), presentando-a com Iphone, MacBook ou carro, até mesmo impedindo-a de ascender na própria carreira por seus esforços, já que ele acabara de comprar a empresa onde Anastasia trabalha, tornando-se seu chefe.

Não há justificativa, também, para o desejo sádico de Grey em transformar garotas em submissas simplesmente por ter sofrido algum tipo de abuso sexual na infância. Não era melhor procurar terapia? Em vez disso, Grey se diverte transformando mulheres em escravas de seu prazer doentio, humilhando-as e destruindo-as psicologicamente. “É só um filme”, eu sei, mas não há como alimentar simpatia, interesse ou até mesmo tesão em uma história que gira em torno desse personagem. Então, de que vale o filme?

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